No mês de conscientização sobre o autismo, mães atípicas denunciam demora por vaga para tratamento dos filhos no PA: '6 anos de espera'
23/04/2026
(Foto: Reprodução) Centro Integrado de Inclusão e Reabilitação (CIIR), em Belém.
Agência Pará
Mães de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) enfrentam dificuldades para garantir atendimento especializado no Pará. Uma delas tem três filhos com TEA na fila de espera por atendimento, sendo que a filha de 11 anos está no aguardo há 6 anos.
Situação semelhante a outra mãe que enquanto o filho mais velho é acompanhado por uma unidade pública (mas já próximo de deixar o serviço), o mais novo aguarda há quase três anos na fila, sem acesso a terapias, medicação adequada e acompanhamento médico.
"Estão sem terapia, que é justamente o que mais ajuda a melhorar a qualidade de vida deles e a minha. Ser uma mãe atípica é um desafio muito grande, porque a maioria de nós não tem rede de apoio”, afirma Bárbara Silva, mãe de três filhos com TEA — de 11, 13 e 15 anos.
Mais de 3,8 mil pessoas com diagnóstico de TEA aguardam atendimento na fila de regulação estadual do Pará, segundo o Centro Integrado de Inclusão e Reabilitação (CIIR), em Belém. A unidade, vinculada à Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), tem capacidade para cerca de 700 pacientes, o que contribui para um tempo médio de espera estimado em 3,5 anos.
A situação evidencia dificuldades no acesso ao tratamento adequado e em tempo oportuno, especialmente para crianças que necessitam de acompanhamento contínuo. O cenário ganha ainda mais visibilidade durante o Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo, quando famílias reforçam a necessidade de ampliação da rede de atendimento no estado.
Em nota, a Sespa informou que "trabalha para aumentar a oferta de atendimentos para as pessoas no espectro do autismo" para "reduzir o tempo de espera na fila de regulação" (veja o posicionamento completo ao final).
Clique e siga o canal do g1 Pará no WhatsApp
Saiba como criar guia online para auxiliar inclusão de crianças com autismo no Pará
Pará lança versão digital da carteira de identificação para pessoas com TEA
Adolescente recebe alta, como se deixasse de ser autistas, reclama mãe
Rosilene Lima com Isaac e Davi
Arquivo pessoal
A dona de casa Rosilene Lima Rocha, de 45 anos, é mãe de Isaac, de 8 anos, e Davi, de 15, ambos diagnosticados com TEA.
Segundo ela, o filho mais velho é atendido pelo CIIR desde a inauguração da unidade, mas já se aproxima da idade limite para permanecer no serviço. Ela critica a falta de políticas públicas voltadas para adolescentes com autismo.
“O Davi é assistido pelo CIIR e está tudo certo, mas o problema é que o atendimento demora muito e ele já está próximo de sair do serviço. Não temos política pública para adolescente. As crianças estão recebendo alta quando chegam à adolescência, como se deixassem de ser autistas e não precisassem mais de acompanhamento”, conta.
Já Isaac enfrenta uma realidade diferente: há quase três anos na fila de espera por uma vaga no CII, ele chegou a iniciar terapias no Serviço de Atendimento em Reabilitação (Saber), no bairro do Marco, em Belém, com apenas uma sessão por semana, mas o atendimento foi interrompido por falta de pagamento da prefeitura.
O g1 entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde de Belém, que disse ter "identificado inconsistências e que estão sendo apuradas pelos setores competentes para assegurar a regularidade e a conformidade dos procedimentos adotados pela Administração Pública. Assim que as apurações forem concluídas, serão adotadas todas as providências necessárias para a regularização de pagamentos".
Desde a interrupção do atendimento no Saber, Isaac aguarda por uma vaga no CIIR. “Eu dei entrada com encaminhamento no posto de saúde, depois tentei por outros meios, e até agora nada. Já fui ao Ministério Público, à Secretaria de Saúde, e a resposta é sempre a mesma: a fila é grande e não tem vaga”, relata a mãe.
Segundo Rosilene, o filho precisa de acompanhamento urgente. Ela afirma que Isaac apresenta comportamento de autoagressão e já chegou a fazer uso de medicação, mas sem resultados. Ainda de acordo com a mãe, sem acesso ao tratamento, a situação tem se agravado.
“Disseram que ele precisava de avaliação global e de terapias. Só a medicação não resolveu, e ele nem conseguiu retornar ao neurologista para reavaliação. Hoje ele está sem terapia, sem medicação e sem consulta com o neurologista. Eu tenho duas pessoas com autismo em casa, e é muito difícil”, desabafa.
Brasil tem mais de 2,4 milhões de pessoas com autismo
"Há seis anos esperando"
Realidade semelhante é vivida por Bárbara Silva, mãe de três filhos diagnosticados com TEA: Jheniffer Vitória da Silva Carvalho, de 11 anos, Ismael da Silva Carvalho, de 13, e Marcos Vinícius da Silva Carvalho, de 15 anos.
"Todos têm diagnóstico dentro do espectro. O Ismael tem autismo, o Vinícius tem autismo e TDAH, e a Jheniffer tem autismo e depressão ”, conta.
Bárbara também detalha o tempo de espera enfrentado pelos filhos na fila por atendimento especializado.
"Minha filha Jheniffer está há seis anos esperando. Ela entrou na fila em 2020. O Marcos entrou em 2023 e o Ismael agora, em 2026. Na frente da minha filha tem mais de mil crianças. No caso do Marcos, são mais de duas mil, e o Ismael já entrou com quase quatro mil pessoas na frente. É uma fila muito longa”, relata.
Ela também afirma que, apesar dos diagnósticos, os filhos seguem sem o acompanhamento necessário.
“Eles estão sem acompanhamento nenhum. Têm o diagnóstico e usam medicação, mas estão sem terapia, que é justamente o que mais ajuda, junto com o remédio, a melhorar a qualidade de vida deles e também a minha”, relata.
Marcos Vinícius da Silva Carvalho, de 15 anos, Ismael da Silva Carvalho, de 13 e Jheniffer Vitória da Silva Carvalho, de 11 anos aguardam na fila de espera para conseguir acompanhamento no CIIR.
Arquivo pessoal
A mãe também destaca que sente falta de orientação profissional no dia a dia. “Eu não tenho formação para lidar com essas situações. Tento aprender pela internet para ajudar meus filhos, mas eles precisam muito de terapia. Muito mesmo”, diz.
Segundo ela, o atendimento atual se resume à renovação de receitas médicas, sem avanços no tratamento. “Hoje é só consulta para renovar receita. A gente segue aguardando na fila de espera por terapia”, afirma.
“Para nós, mães atípicas, cada dia de espera parece ainda maior. Até sair com os três é muito difícil. Eu acabo recusando passeios, aniversários e até encontros de família, porque muitas pessoas não entendem"
"Meus filhos têm sensibilidade a barulho, dificuldade com tempo de espera, seletividade alimentar, e isso tudo desregula eles. Eu deixei de ir a festas de família, aniversários, praças e outros espaços públicos com meus filhos por causa do barulho e da falta de compreensão. São muitas coisas que só quem é mãe atípica entende e sabe o que a gente enfrenta no dia a dia”, desabafa.
Demora pode trazer prejuízos significativos na infância
Especialistas destacam que a demora no início do tratamento pode trazer prejuízos significativos, principalmente na infância, fase considerada crucial para intervenções no TEA. O médico psiquiatra Arthur Silva explica que o TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento, com manifestações que surgem ainda nos primeiros meses de vida.
Segundo ele, as alterações acompanham toda a fase de desenvolvimento da pessoa e podem impactar diretamente a aquisição de habilidades essenciais. "O transtorno afeta, principalmente, a comunicação, a socialização e a autogestão, que são fundamentais para uma vida funcional adequada”, destaca.
Ainda segundo o médico, um dos principais desafios no tratamento do TEA é o tempo limitado para intervenções mais eficazes.
“Nosso maior potencial de aprendizado e de mudança no curso do transtorno está na infância, que é um período curto de amadurecimento cerebral. Apesar de os diagnósticos indicarem, em geral, a idade mínima de 3 anos para um diagnóstico clínico mais seguro, a falta de serviços especializados acaba atrasando ainda mais esse processo. Com isso, muitas crianças enfrentam longas filas de espera para iniciar o tratamento", avalia o médico.
Ele ainda alerta que, aguardar de três a quatro anos por terapias que deveriam ser precoces pode significar a perda de uma janela fundamental de intervenção e o atraso pode impactar diretamente o futuro das crianças. “Isso pode determinar, por exemplo, quem vai conseguir desenvolver a fala, frequentar a escola ou realizar atividades básicas do dia a dia”, conclui.
De acordo com o CIIR, o transtorno não é considerado uma condição de risco imediato de vida, o que influencia na organização da fila de atendimentos. O centro também relata que concentra grande parte dos atendimentos especializados para pessoas com TEA no Pará, especialmente nos casos mais complexos. A centralização contribui para a sobrecarga da unidade e para a demora no acesso ao serviço.
Ainda segundo o CIIR, o atendimento segue critérios técnicos, clínicos, sociais e etários, com priorização baseada na gravidade e vulnerabilidade dos pacientes. O modelo adotado é longitudinal, com ciclos terapêuticos extensos e alta demanda assistencial, o que reduz a rotatividade de pacientes e limita a abertura de novas vagas.
Fala Saúde: campanha 'Abril Azul' fala sobre o diagnóstico precoce do TEA
O que diz a Secretaria de Saúde
Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESPA) informou que trabalha para aumentar as vagas para "reduzir o tempo de espera na fila de regulação e fortalecer o atendimento multidisciplinar em todo o estado", mas não informou prazos.
Segundo a Sespa, o trabalho para aumentar o atendimento tem sido por meio do Projeto "Inclusão", que funciona na Usina da Paz do Jurunas, em Belém, e deve ser ampliado para outras Usinas no Estado. Mas também não foi informado prazo.
"Também estão sendo construidos dois novos Núcleos de Atendimentos ao Transtorno do Espectro Autista (Natea), além da parcerias com associações e instituições [...]. O estado também tem garantido a capacitação de profissionais para o atendimento de pessoas no espectro do autismo", disse ainda a Sespa.
Questionada também sobre previsão de ampliar a capacidade de atendimento do CIIR e sobre os critérios de alta e idades para atendimentos, a Sespa não respondeu.
Além do atendimento em Belém, a rede pública do Pará tem atendimento a autistas também em Capanema e Santo Antônio do Tauá, no nordeste paraense, em Tucuruí e Marabá, no sudeste do Pará, e Santarém, no Oeste, ainda segundo o governo do Estado.
Vídeos com as principais notícias do Pará